
O navio-Balizador “Benjamin Constant”, de propriedade do Estado do Rio Grande do Sul, retornou a ativa na manhã da última quinta-feira, 18 de outubro. A embarcação que foi construída no ano de 1907, para trabalhar com draga, e convertida em 1946, para a função de navio-balizador, e permanece trabalhando aos 105 anos de idade. No entanto, a longa vida útil de serviços têm dado sinais de seu esgotamento. Nos últimos anos, o “Benjamin Constant” tem estado muito mais parado do que em serviço.
No final do ano de 2006 (29/12/2006) o governo do Estado firmou contrato com o SORENAV – Estaleiro de Construção e Reparos Navais Ltda., para realizar serviço de manutenção no mesmo. Segundo a notícia vinculada no site da Superintendência de Portos e Hidrovias – SPH, na época:
“A realização destes reparos concretiza umas das principais metas deste Governo, sendo um marco histórico para Superintendência, visto que a embarcação completa 100 anos em 2007, e que após o término das obras estará em plenas condições de navegação”.
Concluído esta fase, a embarcação rumou para o Estaleiro Naval de Triunfo (março de 2007), de propriedade do Estado para a realização de serviços complementares. Sendo novamente retirada da água por meio da carreira lá instalada. A volta à ativa só ocorreu no mês de novembro de 2010. Quando o “Benjamin Constant” retornou à sua sede, localizada no porto de Pelotas. Segundo consta, um dos problemas que a impediu de navegar estava relacionado à necessidade da mesma possuir um radar funcionando. E que por um período demasiadamente longo, se esteve em dúvida entre consertar o equipamento antigo e já fora de garantia, ou em se adquirir um equipamento novo e moderno, com garantia, peças e mão de obra capaz de mantê-lo em operação sem maiores problemas. Solucionado este impasse, e com um equipamento novo instalado, finalmente ela obteve da Marinha do Brasil, responsável pela sua vistoria final, a liberação para voltar a navegar.
Mas esta alegria durou pouco. Em 21 de julho de 2011, problemas mecânicos a deixaram a deriva dentro da área de canais artificiais da Lagoa dos Patos próximo a Pelotas. Na época o “Benjamin Constant” foi socorrido por uma equipe da draga “Volzee”, que prestava serviço para o Estado na área. Rebocando-o até um ponto seguro fora do canal de navegação.
Já entre o final de 2011 e o início de 2012, novo problema foi acusado. Desta vez a existência de quatro (04) furos no seu velho casco de aço. Fato que obrigou ao Estado a realização de um contrato emergencial visando sua docagem. Contrato este assinado a 16 de fevereiro de 2012, portanto apenas alguns dias após minha saída da SPH, com a empresa CONSUNAV Consultoria e Projetos Navais Ltda., de Rio Grande. O valor desta obra custou aos cofres públicos R$ 19.000,00 (dezenove mil reais). E o serviço foi realizado na carreira do estaleiro SORENAV, localizado no distrito de Barretos, município de Triunfo. Vejam o contracenso existente, pois o Estado mesmo possuindo um estaleiro não possui condições de reparar seu próprio navio, tendo de recorrer aos serviços de terceiros cujo custo é mais elevado.
É bom que fique registrado, que existe uma corrente de pensamento que prega a transferência do serviço de balizamento e dragagem à iniciativa privada. Um dos fatores que embasam esta linha de pensamento é a certeza de que o serviço será executado de forma mais rápida e econômica. Quem defende esta ideia parte de pressuposto que o Estado não possui mais as condições técnicas de executar este tipo de serviço, embora o tenha feito no passado.
Uma segunda linha de pensamento prega que o Estado deveria se reequipar para executar os serviços. Segundo ela o que falta são equipamentos novos e modernos. E que o maquinário que o Estado possui já se encontra muito antigo. A compra de novos equipamentos e a contratação de novos servidores seria uma solução viável para o problema.
E finalmente há uma terceira linha de pensamento que prega a recuperação dos atuais equipamentos e sua operação pelo próprio Estado. Em parte este fato esta se materializando, em convênio firmado com o Departamento Nacional de Infraestrutura Terrestre – DNIT, que vai alocar verbas para a recuperação das instalações (estaleiro) e dos equipamentos (embarcações e dragas).
A experiência que tive a frente da SPH durante o ano de 2011 e parte de 2012 me leva a crer que a contratação do serviço por terceiros é a que dá o melhor resultado. Pois em caso de pane do equipamento o empresário tem o maior interesse em consertá-lo o mais rápido possível. Já quando isto acontece com o Estado, a burocracia acaba por prolongar a processo de forma angustiante. Embora com um custo de obra maior, já que o empresário privado visa o lucro, o contratante possui todo um respaldo legal de cobrança de um serviço bem feito conforme conste no contrato. E o pagamento será realizado conforme for comprovada a conclusão do serviço. Veja no caso da dragagem executada nos anos de 2010/11. Todos os avanços conseguidos foram muito benéficos ao Estado. Por sua vez, das quatro (04) dragas que o Estado possuía para realizar tal serviço, somente uma estava em condições de operação. E seu emprego nesta empreitada exigiria sua retirada de outros serviços aos quais ela esteve alocada.
Por sua vez, conversando com o Carlos César, meu ex-assessor superior na SPH, avançamos um pouco na compreensão da questão custo final. Uma das “caixas pretas” que não consegui abrir dentro da SPH, e que é apontado ano após ano, pelos órgãos de fiscalização do Estado. Estou me referindo à questão das horas-extras. Levando-se em consideração, pura e simplesmente, o salário pago a um funcionário embarcado. O custo para o Estado é muito pequeno. No entanto, pelo fato do mesmo funcionários ser celetista, e possuir um regime de trabalho de oito horas diárias, todo o tempo excedente é hora- extra. O Estado não aplica para este funcionário o pensamento lógico que as empresas de navegação aplicam para os seus funcionários embarcados. Que é um regime todo especial, entre tempo de embarque e tempo de folga.
Por exemplo: Na Navegação Guarita, um funcionário embarcado trabalha 15 dias corridos e folga outros 15 dias. Se ele trabalhar em área ligada diretamente a produtos inflamáveis e tóxicos, esta escala passa a ser de 7 dias trabalhados para 7 dias de folga. Este exemplo é só para demonstrar um caso local. Pois cada empresa pode possuir um regime diferente, fruto da devida negociação com seus empregados. No caso do Estado um único dia de trabalho representa 8 horas de serviço normal e mais 16 horas-extras. Sendo que em algumas destas horas incide 100% de aumento sobre o valor nominal. Fato que é um absurdo. E certamente não vai gerar um serviço mais barato ou de menor custo para o Estado. Assim sendo, este assunto tem de ser discutido com muito cuidado. E o custo tem de ser feito na ponta do lápis, para que se possa saber realmente qual é a melhor ou a pior das opções a serem adotadas.
Ainda sobre o retorno da atividade do “Benjamin Constant”, cabem salientar que o mesmo ficou parado em nosso porto por vários longos meses. Na verdade seu motor teve de ser revisado. E só foi instalado a poucos dias. Mesmo sendo um motor a diesel, e o porto possuindo mecânicos e um engenheiro mecânico em seus quadros. Sua operação na última quinta-feira foi pontual. Serviu para resgatar uma boia luminosa que estava a 500 metros de sua posição correta. Se considerarmos que o canal de navegação possui somente 80 metros de largura. A distância de 500 metros é uma enormidade. Agravada pelo fato da mesma ser luminosa. E a noite indicar um caminho errado ao navegante, expondo-o ao risco de encalhar. A retirada da boia ameniza um pouco a situação. A não colocação de outra em seu lugar, não soluciona o problema, nem dá à hidrovia maior segurança e qualidade. É por isto que quando se critica a falta de uma política séria para o setor se encontra eco nos meios da navegação interior. Pois o que se vê é uma total falta de empenho. E isto vem de anos. Pois do contrário a situação não estaria no estado em que se encontra. Pensem nisso!

Foto 1 - Motor do navio-balizador "Benjamin Constant" chegando no porto dia 09/10/2012
Foto 2 - Navio-balizador "Benjamin Constant" recebendo o motor na área do cais Navegantes
Foto 3 - Navio-balizador "Benjamin Constant" navegando para resgatar bóia local